Política esportiva - Carta aberta à presidente Dilma




















Por Lino Castellani Filho

Começo esta carta externando meu respeito a Vossa Excelência, presidenta de meu país, e à sua história de vida. Diferentemente do que possa aparentar estas linhas, estarei votando na senhora nas eleições de outubro próximo, repetindo gesto realizado em 2010.

Não! Não estou satisfeito com todas as decisões tomadas pelo seu governo, mas tenho clareza de ser o PT - Partido ao qual sou filiado desde 1988 -, no atual contexto político brasileiro, aquele capaz de continuar desenvolvendo esforços para minimizar as desigualdades sociais que nos assolam desde sempre...
Poderia aqui continuar seguindo nessa direção, detalhando pari passu os inúmeros equívocos cometidos pelo governo presidido pela senhora, mas não é isso que me proponho fazer aqui e sim me deter em apenas uma das políticas sociais que, a meu juízo, deve ser merecedora de sua especial atenção em seu próximo mandato.

Refiro-me à Política Esportiva.

Faço isso no entendimento de não podermos deixar passar a oportunidade da recente Copa do Mundo de Futebol – e o insucesso de nosso selecionado -, de enfrentarmos de frente as mazelas que afetam essa política setorial não de hoje e nem tampouco a partir de 2003 com a chegada de LULA à presidência do país. Quem as atribui ao governo petista ou age de má fé ou é ignorante da história da política esportiva brasileira.

Também não me limitarei ao futebol, mesmo sabendo ser ele para nós muito mais do que uma questão de vida ou morte... Fato é presidenta, que nesses últimos 12 anos se perdeu rica oportunidade de desenvolvimento de política esportiva que fizesse jus ao nome.

Até que o início em 2003 foi alvissareiro... O Plano Pluri Anual de Governo (2004/07) explicitava equilíbrio orçamentário entre os Programas, reservando lugar de relevo aos projetos sociais esportivos. O documento aprovado pelo Conselho Nacional de Esporte em 2005, autodenominado Política Nacional de Esporte, trazia em seu bojo avanços significativos no entendimento do papel do poder público em relação ao Esporte. As duas primeiras Conferências Nacionais de Esporte, respectivamente intituladas Esporte, Lazer e Desenvolvimento Humano (2004) e Construindo o Sistema Nacional de Esporte e Lazer (2006), davam mostras que o verdadeiramente “novo” estava sendo gestado...

Mas tudo não passou de ilusão... O documento da Política Nacional de Esporte, em sua essência, não chegou a sair do papel. Até hoje frequenta a página virtual do Ministério do Esporte, como que avivando nossa lembrança do que ela poderia ter sido...

O Conselho Nacional de Esporte expressou sua subserviência ao se submeter, docilmente, ao lugar de tabelião das decisões ministeriais, carimbando-as quando solicitado.

As Conferências derramaram um balde de água fria na esperança daqueles que acreditaram que de suas deliberações sairiam o norte da política esportiva. Não só as viram ignoradas como também presenciaram sua terceira versão (2010) ir no sentido contrário a tudo o que até então havia sido motivo de construção coletiva, explicitando o total comprometimento do governo com os anseios do setor conservador do campo esportivo... Plano Decenal do Esporte e Lazer: 10 pontos em 10 anos para projetar o Brasil entre os 10 mais, seu tema central, quase único, refletiu acima de tudo a infeliz coincidência de interesses dos defensores da visão liberal de “cidade empresarial” – para os quais os megaeventos (não só) esportivos eram e são um prato cheio – e os interesses da carcomida “elite esportiva”...

 Diante desses fatos, Senhora Presidenta, sugiro a extinção do Ministério do Esporte. 

Saiba de antemão que não vai ser fácil fazê-lo, porque contra essa medida se juntarão as forças conservadoras (não só) do campo esportivo brasileiro, nele - assim como também em outras esferas de nossa vida pública – hegemônicas. Sim! Também no interior de nosso Partido encontrará resistência...
Não! Não defendo tal medida por conta do acontecido na recente Copa FIFA aqui realizada. Apenas peço, em contrapartida, que não se deixe enganar pela forma festiva e entusiasmada pela qual ela foi recebida e tratada pelos que aqui estiveram, pois esse crédito precisa ser atribuído a quem de direito, nosso povo.

 Defendo sua extinção pelo conjunto da obra...

Vou mais além... Defendo a extinção do Ministério do Esporte por vê-lo como desnecessário em um cenário político que vê no Esporte, não a prática social reconhecida como direito social na letra – infelizmente ignorada – de nossa Carta Constitucional, mas sim como produto/mercadoria altamente rentável, com forte impacto em nosso PIB em razão da força de sua cadeia produtiva.
E não só isso, mas também pela ciência de que seu forte apelo popular é permissionário de ações governamentais centradas no conceito de cidades empresariais, acima já mencionado, articulador dos megaeventos como a Copa do Mundo que acabamos de presenciar e com o qual, com as olimpíadas de verão em futuro próximo, continuaremos a nos deparar, abrindo brechas para fazer de nosso aparato legal de ordenamento da vida nas cidades, tal qual o Estatuto da Cidade se caracteriza, exceção à regra.

Nesse sentido, proponho que a senhora desloque tal política para o, digamos... Ministério dos “Grandes Negócios”. Tenho esperança que assim procedendo, as entidades de administração e prática esportivas deixarão, pelo menos, de ser aquilo em certo momento chamado de “feudos esportivos” voltados à “pequena” política. Já a esperança de que o interesse público prevaleça sobre o privado, dentro da lógica enunciada, não a tenho...

Em relação aos Programas Orçamentários de natureza social, materializados nos comumentemente chamados projetos sociais esportivos, sugiro que os coloque sob a responsabilidade do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Sim, porque penso que se faz necessário acrescentar à cesta do Programa Bolsa Família produtos que venha alimentar a formação humana dos brasileiros, ampliando e qualificando o conceito de inclusão social hoje presente. Afinal os Titãs já cantavam “que a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”...

Nesse particular, estava propenso a sugerir que os recursos do Ministério do Esporte alocados nos seus projetos sociais esportivos fossem canalizados para o de sua “nova casa”, mas ao me lembrar  do volume orçamentário a eles destinados ao longo desses anos, entendi por bem me calar por tão irrisórios, insignificantes e desrespeitosos que foram e são.

Resta falar do chamado Esporte Educacional, aquele presente nas instituições de educação brasileiras. Desculpe-me a obviedade do que aqui defendo, mas entendo que deva caber a elas, instituições de educação básica e superior, estabelecerem políticas definidoras de como o Esporte - seja na ótica do conhecimento, na de rendimento/performance ou na perspectiva de fruição no tempo livre de trabalho -, deva compartilhar de seus objetivos institucionais. Com esse proceder, minimizaríamos o risco de ver a presença do Esporte nessas instituições submetida aos objetivos da instituição esportiva e não aos delas, configurativo do quadro exaustivamente denunciado do Esporte Na Escola e não do almejado Esporte Da Escola.

Ao me despedir, sei que a Senhora ficaria satisfeita se os problemas que terá que continuar a enfrentar se limitassem ao terreno aqui enunciado. Sei da envergadura dos desafios que enfrenta e continuará enfrentando na condição de presidenta do Brasil. Peço apenas que não descure destes aqui relatado.

Respeitosamente
Lino Castellani Filho
Brasileiro

O esporte libertador e biocêntrico

Entrevista com o professor de Educação Física (CDS/UFSC), Paulo Ricardo do Canto Capela, sobre a concepção do Esporte Educacional.


O futebol como pedagogia


















Experiência do Centro de Referência Esportiva Rio Grande

Já que o país viveu uma polêmica Copa do Mundo, o Centro de Referência Esportiva Rio Grande decidiu fazer um evento que pudesse trabalhar a prática do futebol e, ao mesmo tempo,  discutir esse tipo de competição. Assim, no dia 19 de julho, nas dependências do Complexo Esportivo Dênis Willain Lawson, o projeto realizou a "Copa do Mundo", do CRE.

A participação foi massiva. Mais de 87 alunos compareceram dispostos à brincadeira.

Ao chegarem, os alunos foram divididos em 8 seleções (4 seleções com alunos entre 7 e 12 anos, e 4 seleções com alunos entre 13 e 17 anos). A partir daí foram realizadas as partidas de futebol, com os alunos atuando em diversas funções/profissões deste meio como, por exemplo, jogadores, técnicos, árbitros, fotógrafos, comentaristas, gandulas, torcedores e apresentadores do evento.

Antes de cada partida, enquanto as equipes entravam em campo e seus técnicos passavam as últimas orientações, o apresentador do evento anunciava as equipes relatando informações/curiosidades das mesmas embasado em pesquisas elaboradas pelos próprios alunos dias antes da competição.

Cada participante tinha sua função, ora dentro do campo de forma direta, ora fora, desmistificando a ideia de que futebol só pode ser vivenciado dentro das quatro linhas. Na prática, a proposta era vivenciar a alegria e a arte desse esporte que é uma paixão nacional.

Ao final da tarde, após diversas partidas, a equipe da Argentina ( com alunos de 7 a 12 anos) e a seleção do Uruguai (3 a 17 anos) receberam medalhas pelo título em cada categoria. Os demais alunos representando as equipes do Brasil, Alemanha, Holanda, Chile, Espanha e México também receberam medalhas pela participação. Ali, o importante não era vencer, mas compreender como se organiza um certame .

As divertidas e educativas atividades foram coordenadas pelo professor Peterson Dourado, o estagiário Alexandre Degani, com a participação de outros professores do Centro.

Os megaeventos esportivos: uma discussão crítica


























Por elaine tavares  - jornalista

O Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA), da Universidade Federal de Santa Catarina, lança o livro "Megaeventos esportivos: suas consequências, impactos e legados para a América Latina", organizado pelo professor Paulo Capela e a jornalista Elaine Tavares. O trabalho, que reúne as conferências realizadas durante a Nona Edição das Jornadas Bolivarianas, evento anual do Instituto, é uma reflexão profunda sobre a política e a lógica dos megaeventos que começaram a se consolidar nos anos 80, tornando o esporte uma mercadoria bastante valiosa no processo de acumulação capitalista. A leitura é indicada para todas as pessoas que procuram ver além do senso comum incensado pela mídia, de que os eventos são promotores de progresso e riqueza. Em certa medida, essa assertiva é uma meia verdade, porque, afinal, os megaeventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, geram muita riqueza, mas é para um pequeno e seleto grupo de empresários, no comando das multinacionais. 

Os debates sobre os megaeventos, realizados em abril de 2013, procuraram abordar os mais variados aspectos do tema, não apenas o jogo em si ou a prática do esporte. No texto de abertura, o professor da UNOESC, Nilso Ouriques, recupera historicamente todo o processo de construção dessa lógica do esporte como empresa, que tem sua guinada para o que hoje conhecemos como megaeventos a partir do conhecido acordo realizado entre a FIFA, recém assumida pelo brasileiro João Havelange, e a empresa Adidas, em 1974. Desde aí, as marcas comerciais passaram a ser associadas visceralmente aos clubes e aos atletas, a tal ponto de, em alguns casos, serem as empresas patrocinadoras as que dirigem o trabalho conforme seus interesses. Nilso ainda mostra como o estado vai sendo sequestrado por essa prática e acaba cedendo também às armadilhas do capital, principalmente aqueles que estão na periferia do sistema capitalista.

O professor Fernando Mascarenhas escreve sobre como foi construída a agenda do Bloco Olímpico para os jogos no Brasil em 2016, a participação do estado brasileiro e a decisiva intrusão do mercado no processo, o que tem ocasionado toda a sorte de mobilizações e lutas, principalmente no Rio de Janeiro. Segundo ele, houve uma aliança entre o governo e a grande burguesia nacional para o fortalecimento do capital privado local, além de o estabelecimento de uma subordinação às entidades proprietárias dos jogos. E, por conta disso, houve um completo distanciamento entre estado e as demandas populares.

O médico equatoriano Jaime Breilh mostra, de maneira cabal, a cara visível e contraditória do caráter predador do esporte negócio, com implicações cruciais sobre a saúde dos atletas. Segundo ele, a sociedade de mercado substituiu a lógica da vida por uma proposta mercantil, agressiva, ligada a acumulação de riqueza para alguns. O esporte deixa então de ser um valor de uso da humanidade para se transformar num valor de troca para os negócios de grandes empresários. Ele mostra ainda como essa lógica se expressa na América do Sul, bem como o rastro de destruição que ela deixa. Dentro do que chama "epidemiologia crítica do esporte", ele argumenta que a prática da atividade física deveria estar voltada para a saúde coletiva e não para acumulação privada de riqueza. Breilh ainda estabelece elementos para pensar uma agenda estratégica que mude o rumo dessa política.

Marcelo Proni, da Unicamp, mostra que a literatura internacional sobre os megaeventos esportivos não comprova que eles sejam propulsores de desenvolvimento econômico para as regiões onde acontecem. Pelo contrário. No geral, esse tipo de evento reforça a dominação política e subordinação econômica típicas do capitalismo contemporâneo.  Ele também mostra como esses eventos vão sendo usados para legitimar os gastos públicos que acabam beneficiando poucos empresários e explica por que a FIFA e o COI fazem tantas exigências. É um texto para desvelar as verdades que a mídia comercial omite. 

O sul-africano Eddie Cottle, autor do livro "Copa do Mundo na África do Sul: um legado para quem", explica, em parceria com Maurício Rombaldi, quais foram as lições da Copa realizada no seu país. Segundo ele, o evento impactou de maneira total as cidades, concentrando despesas de capital e trabalho, mudando a fisionomia dos lugares e mexendo com a vida das populações. Tudo isso para, em curto prazo, sair de cena, deixando um cenário de abandono e destruição. A experiência dos trabalhadores da construção civil na África do Sul é contada, mostrando que, mesmo diante de toda a força do capital, os trabalhadores organizados ainda conseguiram avançar nas suas demandas. Uma leitura imperdível para aqueles que insistem em dizer que os que criticam a realização dos megaeventos no Brasil são contra a festa ou a alegria dos povos. A experiência da África do Sul reverbera e ensina. 

Renato Cosentino, do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro, traz a face perversa e escondida dos megaeventos, explicitando todo o terror que centenas de famílias vivem no Rio de Janeiro, por conta das desocupações forçadas. Ele mostra ainda como o estado do Rio procurou invisibilizar a pobreza em nível internacional ao mesmo tempo em que colocava a capital à venda. Ele revela como se deu o consenso olímpico a partir de uma promessa otimista que procurou envolver toda a nação, embora os lucros sejam apenas para alguns. Cosentino ainda mostra toda a luta que está sendo travada pelas populações atingidas pelas obras da Copa no que diz respeito ao direito à cidade. Uma luta que é ridicularizada, mas que na crueza da sua realidade, precisa se fazer como um imperativo de sobrevivência.  

O jornalista mexicano Maurício Mejía conta a experiência do México com os dois eventos - Copa e Olimpíadas - os quais já sediou. Segundo ele, todas as promessas contidas nas propostas de desenvolvimento não se cumpriram e além de tudo, o esporte no país nunca conseguiu ascender a um patamar em que as populações o assumissem como lazer ou saúde. No México, a população cada dia menos faz esporte, apesar de consumir esporte via televisão. Os eventos serviram para fortalecer governos, para jogos políticos e para o enriquecimento de algumas famílias. Tudo muito pontual.

O professor uruguaio Raumar Giménez comenta que os megaeventos tem sido uma boa ocasião para refinar discursos acadêmicos, mas com poucos efeitos sobre a vida política. Servem para sustentar discursos como cidadania e participação popular, mas acabam não tendo qualquer impacto sobre políticas públicas que visem uma melhoria na qualidade esportiva das gentes. Os eventos são apenas shows, espetacularizados pelos meios de comunicação.

O jornalista Juca Kfouri traz os bastidores do mundo do esporte, as histórias que estão por trás dos discursos, a orgia de gastos na construção dos novos estádios e a mercantilização cada vez maior do futebol. Com sua conhecida ironia, Kfouri produz uma fina crítica sobre todo o processo de construção dos megaeventos no Brasil e o papel da FIFA e do COI, embora não rechace a lógica do esporte como mercadoria. Por conta disso, ele reivindica a necessidade de uma nova classe dirigente para o esporte brasileiro, mais adequada  para pensar o esporte como negócio na indústria do entretenimento. Ele crê que a globalização está aí e não se pode lutar contra ela, embora possa se produzir um choque de gestão que eleve o esporte brasileiro.

Danuza Meneghello e Fábio Pinto discutem a resistência cultural necessária no cenário esportivo brasileiro e citam como exemplo o jogo da capoeira. Uma proposta que se contrapõe totalmente ao modelo de competição e rendimento do esporte-negócio. Defendem a prática de um esporte enraizado na vida real, capaz de integrar e incluir todas as pessoas, afinal, a prática esportiva precisa ser prazer e brincadeira, bem distante, portanto, do mundo dos negócios. 

Nildo Ouriques  discute os megaeventos no âmbito da economia e da política, mostrando o que acontece quando a alegria vira mercadoria. Ele ainda mostra a diferença entre o que seja o orgulho burguês nacional (no geral, incentivado pela mídia) e o nacionalismo revolucionário, que procura pensar o nacional dentro de outra ótica. Também aponta a triste condição colonial que aparece em eventos como esses, concretizada em coisas como a Lei da Copa, por exemplo, com a qual o país se ajoelha diante dos interesses multinacionais. Também busca no conceito de mais-valia ideológica, de Ludovico Silva, refletir sobre como os meios de comunicação se prestam a ideologia capitalista e mostra como não é possível analisar o esporte fora das relações capitalistas.

O livro encerra com o texto de Eddie Cottle, Paulo Capela e André Meirinho, já com uma pesquisa referente aos cartéis da construção civil que estiveram envolvidos na construção dos estádios novos e nas reformas. Uma importante contribuição que mostra, com números e casos reais, aquilo que no campo da teoria foi discutido durante as jornadas. 

Assim, o livro se coloca como uma colcha, que, a partir dos mais variados desenhos, vai se fazendo e mostrando uma importante unidade de análise. O pensamento crítico que pode subsidiar a compreensão do fenômeno dos megaeventos e suas consequências para a vida nacional.  Muitas dessas consequências já se fizeram visíveis nos despejos, na destruição de comunidades inteiras, na mortes de operários, na descaracterização das cidades. Mas, outras tantas ainda estão por vir, depois que passar toda a festa. 

Resta a quem procura ler o mundo com clareza ter lentes claras para ver e não se juntar ao otimismo cego. Se algumas coisas boas podem vir dos megaeventos, não dá para esconder a cabeça no buraco e negar os desastrosos legados que também virão.

O livro pode  ser encomendado ao Iela, ao preço de 20 reais, pelo correio eletrônico:iela@contato.ufsc.br

Copa do Mundo na África do Sul; Um legado para quem?

























Por elaine tavares

O Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA), da Universidade Federal de Santa Catarina, através do esforço do professor Paulo Capela, coordenador do Vitral  Latino-Americano de Educação Física, Esporte e Saúde, traduziu para o português a obra organizada pelo sul-africano Eddie Cottle, sobre a Copa do Mundo na África do Sul, em 2010. O resultado é um mosaico de estudos  que mostra claramente quais foram os legados desse megaevento, que muito mais se apresentaram positivos para a FIFA do que para o país. Para se ter uma ideia, a Federação Internacional que comanda o espetáculo teve um lucro líquido de 3,4 bilhões de dólares, livre de qualquer imposto. Já a África do Sul , que estimava gastar 2,3 bilhões de rands (moeda local), acabou arcando com 39 bilhões de rands, um aumento de 1.700% entre o que se estimava e o que se gastou de fato. 

O trabalho coordenado por Eddie Cottle é uma vertiginosa teia de informações que assombra e emudece, até porque o Brasil passou pelo mesmo momento. Ao longo dos textos, nos quais os estudiosos contam como se construiu a ideia de realizar na África do Sul um evento dessa magnitude, vai se percebendo que os argumentos usados para aprovação dos gastos são exatamente os mesmos usados no Brasil. O impacto aparece no rastro de destruição que foi deixado e a completa indiferença por parte da FIFA e de seus parceiros – multinacionais como Adidas, Sony e Mc Donalds – com o que deixaram para trás.

O futebol, que nasceu aristocrata, mas, em pouco tempo se transformou num importante esporte popular foi apropriado e transformado em uma mercadoria cada mais distante da classe trabalhadora. Com ele, a FIFA tem garantido gordas parcelas de lucro de um grupo muito pequeno de “dirigentes” e, com a realização da Copa nos países subdesenvolvidos, tem conseguido acumular ainda mais, sempre às custas da vida de milhões. Um insensatez, se considerarmos que o futebol, quando chegou à América Latina, por exemplo, era usado como uma metáfora de revolução. Conforme conta Dale McKinley, no texto “FIFA e o complexo desportivo de acumulação”, os anarquistas e socialista argentinos, que trouxeram o esporte para aquele país, afirmavam que o futebol era “um jogo socialista... todos jogavam juntos com o objetivo de chegar à linha de meta, este era o triunfo, esta é a revolução”...

Mas, com a FIFA, que mergulhou de cabeça na lógica do esporte mercadoria durante a gestão de João Havelange, a única “revolução” que aconteceu foi a do gigantesco movimento de lucro que segue sendo canalizado para poucas contas em bancos amigos.

No caso da África do Sul, a mesma cantilena da possibilidade de  desenvolvimento, progresso e pleno emprego, foi usada para convencer a população de que aquilo que seria o ganho estrondoso de alguns era também vantajoso para o país. Não foi. Os números apresentados pelo estudo coordenado por Eddie Cottle dão conta de que não houve crescimento de empregos, pelo contrário, houve mais exploração dos já empregados e uma leve alteração nos empregos temporários que se extinguiram subitamente tão logo o evento acabou. O mesmo pode ser dito dos trabalhadores da construção civil que ficaram ocupados por algum tempo antes da Copa, construindo os imensos e inúteis estádios, ficando a deriva tão logo tudo terminou.

Ao pais, sobrou apenas as contas para pagar. De todos os estádios construídos (em número de oito, cinco são elefantes brancos, sem uso). Um deles, o Nelson Mandela Bay Stadium custa ao cofres públicos 65 milhões de rands por ano, apenas para se manter de pé, já que é pouco utilizado. Um dinheiro que poderia estar na saúde ou na educação, ou livrando as cidades da odiosa presença dos esgotos a céu aberto.

O livro desvela todos os segredos da montagem do espetáculo, as armadilhas econômicas, a luta dos trabalhadores, a terrível face da violência desencadeada contra os pobres que foram despejados e desalojados para dar lugar aos estádios ou a avenidas. Mostra a exclusão completa dos pobres da festa da Copa, com o impedimento dos trabalhadores informais em ganhar o seu dinheiro, sendo obrigados a ficaram longo dos estádios. Mostra como a mentira e a deturpação foram utilizadas para enganar toda uma nação, desvenda as entranhas da FIFA, escancara os lucros exorbitantes que as empresas amigas da FIFA tiveram, os contratos leoninos que jogaram as contas todas na mesa do povo sul-africano.

Mas, o trabalho de Eddie Cottle também coloca no foco a luta dos trabalhadores da construção civil, que marcaram um ponto na batalha por melhores condições de vida, que conseguiram reconstituir uma solidariedade trabalhista internacional que há muito andava rota. Fala da batalha das gentes trabalhadoras das periferias das cidades que, ainda que à sombra da cidade mundial – representada pelo capital -   travaram o combate e colocaram no centro do debate as entranhas da farsa.

“Copa do Mundo na África do Sul: um legado para quem?” é uma leitura amarga, mas necessária. Porque não é um panfleto desesperado, visando convencer quem não se interessa pelo tema. É um estudo profundo da maquinaria futebolística montada pela FIFA  o retrato sem retoques de uma festa que, ainda que traga alegria e prazer, dura apenas 30 dias, enquanto seus efeitos perduram por décadas, sob as costas da maioria.

Copa do Mundo da África do Sul – um legado para quem?
Autor: Eddie Cottle
Editora Insular - 2014